Um lugar qualquer. Um dia qualquer. Uma bebida qualquer. Uma conversa qualquer. Mas não uma pessoa qualquer. Tem que ser você.

10:51
… pt. I


Chegou, finalmente, ao seu destino. Pela ansiedade, a pequena rota pareceu uma viagem inteira. Cinco minutos atrasada. Antes de descer do táxi, remexeu a bolsa rapidamente, pegando um espelho que carregava. Checou a aparência. Acertou as contas com o taxista, um homem velho e rabugento, porém, talvez um dos poucos que conseguiam fazer com que não se atrasasse tanto em compromissos importantes (ou não). O homem coçou a barba e agradeceu-a. Desceu rapidamente e foi caminhando com passos pequenos, desajeitados ao tentar ser ágil, em direção á portaria de um prédio alto e bem elaborado. Entrou nesse prédio, diretamente no saguão do lugar. Averiguou, em busca de um elevador. Encontrou apenas escadas. Correu em direção á estas, driblando o desequilíbrio que o salto alto lhe causava. Segurou com firmeza a bolsa e começou a subir em direção ao primeiro andar, se orientando pelas placas que haviam nas paredes, que indicavam em qual andar se encontrava.
Em instantes, encontrava-se no primeiro andar. Analisou rapidamente o seu redor. Avistou o elevador e correu novamente para tomá-lo. Apertou o botão que correspondia á chamada do elevador e esperou.
Enquanto esperava, analisou a roupa. Sobretudo bege, uma calça colada, de cor preta. Sapatos de salto alto pretos, elegantes. Deslizou a mão nos longos cabelos escuros, a fim de arrumá-los de uma forma sensual, porém, que passasse despercebida e somente os perfeccionistas conseguiriam notar.
Um tilintar, o elevador apontava que estava no primeiro andar. A porta, metálica, reluzente, abriu-se lentamente, causando certa nostalgia; abriu-se totalmente. Entrou no elevador, notando que havia alguém lá dentro. Sorriu simpaticamente. Sentiu um cheiro amadeirado exalado, marcante. Apertou o botão que correspondia ao décimo andar. Virou-se, fazendo uma análise disfarçada da pessoa que ali estava: Usava óculos e trajava roupas pretas. Um sapato igualmente elegante e tão alto quanto o seu. Cabelos curtos, igualmente pretos, um pouco bagunçados, bolsa despojada dependurada no seu antebraço, parou para notar-lhe o rosto: Pele rosada e sardas por cima do nariz, que se extendiam pelas bochechas e pescoço, sobrancelhas finas e discretas, olhos nem claros, nem escuros, contrasteavam com a pele rosada.
Então, olhou-se no espelho e se auto analizou: Pele esbranquiçada, contrasteando com os seus cabelos escuros e naturais. Sobrancelhas bem desenhadas, nariz graciosamente pequeno. Olhou novamente pra sua companhia no elevador. Ela carregava consigo uma pasta, alguns livros sobre a pasta. Forçou os olhos para tentar ler algum título, porém, não haviam títulos.

Oitavo andar. Um tilintar, o número oito no display, a porta se abriu. Ela saiu do elevador rapidamente, tentando equilibrar a pasta, os livros e a bolsa nos braços. A porta se fechou. Continuou no elevador, esperando o décimo andar, este continuou a subir. Outro tilintar. Décimo andar. Tudo parecia em câmera lenta. Sentiu pânico ao ver pessoas ali conversando; odiava estranhos e multidões. Sentia-se… Estranhamente confusa e deslocada. Pensou e repensou em questão de segundos. Apertou o botão que indicava o andar de número um rapidamente. Suspirou aliviada.

Um universo paralelo. Ela vivia presa, dominada pelos seus pensamentos, histórias e ilusões. Procurava equilíbrio dentro do seu aprendizado particular. Tinha muitas personalidades, uma delas, era pra enfrentar as adversidades impostas pela própria convivência social, qual procurava evitar o máximo. Ela não se compreendia, descrevia-se em seus textos sem nexo, procurando entender-se um pouco. Pegou rapidamente a bolsa os livros em branco e uma pasta, de cima da charmosa mesa de centro, que decorava a sala de número 115, do oitavo andar do articulado prédio. Abriu a porta, caminhou um longo corredor até as escadas, notando, pela última vez, alguns dos quadros e o tapete mesclado que havia ali. Ergueu a cabeça levemente, liberou a consciência e desceu as escadarias.

Olhava a rua, sempre movimentada. O céu acinzentado, parecia querer desabar aos poucos como a sua própria vida. Respirou fundo e acomodou-se nas colunas do prédio, esperando por algum táxi ou qualquer tipo de transporte que pudesse tirá-la dali. Remexeu novamente a bolsa, sacou um cigarro, encaixou entre os dedos indicador e médio da mão esquerda, procurava desesperadamente um isqueiro, sem êxito. Gostava de cigarros, embora o soubesse de cor o mal que causavam á saúde, encarava-os como uma terapia. Decidiu que esperaria alguém passar fumando e então pediria o isqueiro, com a condição de não olhar para a pessoa que seria o dono do isqueiro. Fechou o zíper da bolsa, colocou-a no antebraço, junto com o sobretudo bege. Tornou a olhar o céu, desejou estar acomodada no seu quarto, fechou os olhos por alguns segundos — abriu-os. Deparou-se com um isqueiro á sua frente. Um ‘click’, uma chama, seu cigarro aceso, a brasa alaranjada, queimando, exalando fumaça azulada. Um longo trago; Uma análise rápida: Óculos, cabelos pretos e bagunçados, livros sem títulos, sardas deslizando pelo nariz, bochecha e pescoço. Um sorriso diabolicamente sarcástico.

— Obrigada. - Agradeceu e abaixou a cabeça, expressando timidez.

Sem cerimônias, virou as costas e foi caminhando com seus pertences. Olhou-a caminhar. Respirou fundo e chamou-a de volta. Ela abriu um dos livros, revelando páginas em branco.
— Uma história. Não uma estória. Uma história. - Sussurrou. Enroscou as chaves de um veículo nos dedos. Ofereceu-a locomoção, tornando o ocorrido fracasso em álibi.

10:01

Olhavam pela janela as pequenas luzes que vinham das casas, lá de baixo, parecia tão longe. Estavam ao topo da mais alta colina da cidade onde moravam — cidade fria, pessoas simples, montanhas e bosques, como se pintados á mão, enfeitavam o lugar. Haviam lagos em muitos pontos, praças e teatros, romanticamente estúpido. Chegou-lhe a cabeça aos meus ombros, logo em seguida, ganhou um afago e soltou um longo suspiro.

—  Acha que a vida vai além disso tudo? - Me perguntou, num tom suavemente doce.

— A vida vai além de muitas coisas, de muitos lugares. - Respondi.

— Por que pensa em lugares? - Então, olhou pra mim. Fitou os meus olhos. Ora, geralmente todos temos o padrão de lugares quando se trata de viver. É como se as pessoas tivessem raízes. Elas guardam consigo aquela velha história de que não se pode negar a própria origem. Ainda assim, mudam o tempo todo das suas casas, das suas cidades, do seu país. E quando mudam, costumam dizer que vieram de longe, para tentar algumas chances no novo habitat.

— As pessoas são ligadas á lugares, não são? - Disse, porém com dúvidas. Os seus pensamentos me faziam, geralmente, olhar por trás das cortinas e conhecer o lado oposto das coisas.

— A maioria é ligada á lugares. Algumas outras, são ligadas á pessoas. Á almas. Á sensações.

Arqueei as sobrancelhas revelando confusão. Ela tocou uns fios do meu cabelo, deslizaram-se por entre seus dedos. Enrolou esses fios no indicador.

— Então, por que me perguntou se a vida vai além disso tudo? O que queria dizer com “isso tudo”?

Aconchegou-se novamente nos meus ombros; Olhamos para a janela e vimos montanhas, árvores, a noite. Instantaneamente pensei no infinito das coisas. Um ciclo eterno.

— ” Isso tudo “… Isso tudo é o que vivemos aqui e agora. Sem passado e futuro. Sem ontem e amanhã. Faço questão dos seus fios de cabelo, afinal, se eu estivesse no pior do lugar do mundo, ainda assim, seria o melhor se eu pudesse estar com você. Isso me faz concluir que não sou uma pessoa ligada á lugares ou material. Sou ligada á você e é assim que sempre foi. Gostaria de viajar o mundo todo, mas só o faria se viesse comigo. O nosso hoje, é mais importante pra mim, que o nosso amanhã, se este existir. Por isso não faço a questão das pessoas e seus lugares, faço questão das pessoas com as pessoas. Cada uma com aquela metade perdida, levada pelo vento, que um dia será cinzas. Assim como eu e você.

Fitei-lhe o rosto. Aqueles traços delicados. Se encaixavam bem na minha grosseria. Ela sempre sabia o que dizia. E notei que “isso tudo”, na proporção infinita, éramos apenas eu e ela. Mais nada.

2:28

Durante uma das ligações, estava eu sentado em frente ao computador pensando sobre o que escreveria hoje. Eu ouvia a sua respiração. Suspirava e se queixava de uma insolente dor que a perturbava. Ouvia-se há quilômetros uma música irritantemente feliz. Porém, concentrei-me na sua respiração. Se queixou sobre o barulho que meu teclado fazia. Ficou um pouco irritada, pensando que eu estava conversando com outras pessoas, mas eu só estava escrevendo um textinho bobo, como esse, pra que ela pudesse se lembrar o quanto eu me sentia feliz e ridiculamente sorridente enquanto ouvia a sua respiração.

Porém, ela desconfiava quase que sempre. Por alguns instantes, eu gostaria de poder provar cada centímetro de tudo o que eu fazia. Cada pequeno detalhe. Mas é… Quase impossível. Por enquanto, tudo o que temos, é aquele velho telefone.

1:16

Algumas gotas solitárias de chuva tocavam a vidraça naquela manhã. Se sentia bem quando a chuva começava suave e de pouco em pouco, tomava tal intensidade. Sentiu um alívio ao saber que não haveria o tilintar do despertador, avisando por mais um dia de guerras sangrentas lá fora. Dentro do quarto fechado, com as cortinas entreabertas, podia olhar a chuva e sentir-se protegido do mundo qual lhe causava hematomas todos os dias. Levantou-se e lentamente, com passos precisos, caminhou até a janela para observar melhor as gotas de chuva. Pessoas em frenesi lá fora, correndo pra lá e pra cá com seus guarda-chuvas abertos, alguns coloridos, outros simplesmente pretos ou incolores. Deslizou os dedos na vidraça da janela. A luz acinzentada que o dia apresentava, invadiu um pouco o quarto levemente escurecido pelas cortinas. Um bom clima pra adormecer e fechar-se mais um pouco num mundo de ilusões. Já estava ciente que se ficasse acordado, milhões de sentimentos negativos, devido á solidão e á distância lhe afetariam. Sem pensar duas vezes, fechou as cortinas, deixando o breu predominar. Voltou correndo, em passos pesados para cama. Confirmou se a ligação estava ali. Ouviu a sua respiração. Deitou-se rapidamente, emaranhando-se no amontoado de cobertas. Fechou os olhos — rogou para que pudesse sonhar com algo mais real hoje.

9:59

O divã de veludo negro, contrasteava com as paredes brancas. Uma porta entreaberta. Luz baixa. Uma caneta e uma folha, uma solidão e certa paz no ambiente. A escrita na folha, dizia: ” Harmonicamente, coloque em ordem os seus sentimentos “.

Começou a movimentar vagamente a caneta. Escreveu a letra “a”. Continuou.

" Aglomerou-se em mim. Está nas minhas roupas. Está debaixo da minha pele, correndo nas minhas veias. Meu coração bombeia isso. Meu cérebro tenta analisar e racionalizar isso tudo. Em seguida, entro em acordo, dizendo á mim mesmo que não é possível analisar. Está constantemente nos meus pensamentos. Está nos meus sonhos e lembranças. Nos objetos. Nos sons. Nas ruas.

Parou. Respirou e tornou a pensar. Moveu vagamente a caneta, novamente. Voltou a escrever.

" Tornou-se a minha personalidade. Porém, me sinto vivo e feliz. Sei que sou capaz de sentir e cuidar disso tudo, embora algumas tristezas e desencontros. Sei que quando morrer, não morrerá comigo. Deixará marcas na minha alma. E viveria a eternidade assim: Procurando encontrar tudo o que faz parte de mim. 

Colocou rapidamente a folha e a caneta ali no chão. Deixou a mente fluir pelos seus corredores secretos. Ah, aquele baú com coisas guardadas…

12:36

Sem muralhas, então, podemos nos invadir. Conhecer defeitos novos, reconhecer adjetivos antigos. Aquelas coisas loucas, guardadas naquele velho baú, jogado num canto escuro e intocável das nossas mentes. Aqueles prazeres antigos, uma vez, destruídos pelas nossas tempestades… Celebrar com uma taça de vinho tudo aquilo que conquistamos, destruímos e reconstruímos. Aquele velho eu, aquele velho você. Agora contemporâneos, remanejados pelos novos ideais. Contemple.

10:23

— Boa noite.

Ah, aquele maldito timbre marcante e arrastado. Reconheci aquela voz. Sabia que estava ali, escondida em alguma sombra. Olhei para os lados, minha única luz era a pequena brasa que brilhava ardente, alaranjada, queimando o fumo de um cigarro branco. Resolvi ignorá-la. Não queria jogar seu jogo hoje. Não hoje, não quero me assombrar.

— Não vai falar comigo? - Insistiu. Senti aproximando. O inconfundível cheiro de perfume amadeirado. Olhei pra trás, nada ali. Por um milésimo, consegui enxergar a forma dos seus cabelos negros, misturados á escuridão e seu sorriso sarcástico.

— Não. Não hoje. Não agora. - Respondi-lhe arduamente.

Senti-a se aproximando e com alguma dificuldade, consegui vê-la desfocada, apagada pela escuridão. A pele branca e levemente rosada, os olhos avermelhados, malévolos. Senti as suas mãos tocando nas minhas, o calor, o exato peso, qual eu conhecia muito bem. Ninguém sabia o mal que ela me causava, mas também, fazia parte de mim e eu era obrigada a aceitar.

— Me rejeita hoje. Amanhã precisará de mim. Você sabe disso. Sem mim, você não é ninguém. Eu sou seu espelho, eu sou sua alma, eu sou sua carne, eu sou e estou nos seus pensamentos.

Esvaeceu-se na escuridão. O timbre, o perfume amadeirado, o calor e aqueles malditos olhos.

— Meu lado mal bem faz á mim. Mas não posso aceitá-lo todos os dias.

Revelei ás paredes e as sombras.

7:19